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Livros - Editora do INEAF

Publicado: Segunda, 16 de Abril de 2018, 14h23 | Última atualização em Segunda, 16 de Abril de 2018, 14h42 | Acessos: 331

O Instituto Amazônico de Agriculturas Familiares está em processo de implantação da Editora do INEAF. Esta ação está sendo desenvolvida pelo setor de Comunicação do INEAF com orientação e apoio da Direção da unidade.

 

Vida e trabalho: um estudo sobre mulheres extrativistas de mangaba na ilha do Marajó, Estado do Pará, constitui um belo trabalho realizado por Bianca Ferreira Lima na Vila Paca em Salvaterra, a “princesinha do Marajó”.

Ao longo da sua história, Bianca Ferreira tem procurado incessantemente entender e explicar a (in)visibilidade do papel da mulher, à qual se opõe. Para isso, ela não hesitou em mergulhar nas histórias de vida de mulheres cujas trajetórias são pontuadas por idas e vindas: embaladas com o sonho de uma vida melhor, muitas migram na juventude para Belém, a capital do Estado do Pará, onde as tentativas de conciliação entre o trabalho assalariado como empregadas domésticas, o estudo e, às vezes, a gravidez precoce e inesperada nem sempre são bem-sucedidas, o que as força a retornar para o lugar da família.
Em seus lugares de origem, dedicam-se a um conjunto de atividades, e Bianca escolheu o extrativismo da mangaba para ilustrar o seu dia a dia, repleto de afazeres que garantem a sobrevivência dos que delas descendem. Como em outras comunidades rurais, as mulheres predominam na chefia domiciliar, tendo de compatibilizar as atividades da esfera doméstica com o extrativismo, a agricultura de aprovisionamento e o eventual assalariamento no verão. Para além do trabalho, a análise de Bianca revela as trajetórias pessoais e familiares dessas mulheres, a sua luta pelo acesso aos recursos naturais contra os que chegavam de fora e tentavam expropriá-las, a vida cotidiana na comunidade e os processos de constituição de identidades nos quais a liberdade de ir e vir subjaz como elemento essencial. Essas idas e vindas ganham cor e forma no discurso impresso nas páginas do livro de Bianca Ferreira.
O estudo de Bianca Ferreira é uma interessante reflexão sobre o lugar do extrativismo e das mulheres extrativistas na sociedade contemporânea, destacando a gestão local dos recursos naturais, essencial para a reprodução social de grupos e a conservação da biodiversidade. A autora consegue traduzir anseios e tensões vivenciadas pelas extrativistas no exercício cotidiano de múltiplas atividades, ritmado pelo tempo e pelo espaço.
Creio que a maior riqueza do livro está na equilibrada combinação de reflexão teórica e de pesquisa empírica. Categorias analíticas como extrativismo, trabalho e gênero estão no centro das reflexões, aliadas a um trabalho empírico cuidadoso. O resultado é a compreensão da rede de relações sociais que se tecem na comunidade estudada.
Ainda que tenha enfatizado a construção da visibilidade social das mulheres, Bianca Ferreira não se dá por satisfeita e lança desafios, afirmando “que ainda há muito que se estudar e se fazer quando o tema abarca o extrativismo da mangaba na região Norte do país, a exemplo das relações de gênero e da problemática do reconhecimento do papel da mulher em situação de vulnerabilidade social frente à exclusão de políticas e programas que não consideram suas demandas”.
Por fim, a autora destaca a urgência do reconhecimento de modos de vida culturalmente diferenciados – aquilo que seria o alicerce da construção de novas relações sociais, nas quais homens e mulheres possam autodefinir-se e questionar as categorias de classificação impostas por terceiros.
Bianca Ferreira brinda-nos, assim, com uma obra que alimentará o debate tanto acadêmico quanto político. O livro é, portanto, uma contribuição sensível, competente e original sobre as mulheres extrativistas em suas comunidades tradicionais no Norte do Brasil na contemporaneidade.


Prof.ª Dr.ª Dalva Maria da Mota
Pesquisadora da EMBRAPA Amazônia Oriental
Docente do Progrma de Pós-Graduação em Agriculturas Amazônicas

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